#21

Fala pessoal!

Pode parecer chavão ou até mesmo lugar-comum, mas hoje posto aqui algo que nunca sai da minha vitrolinha. Um disco que definiu os parâmetros da 'grande máquina' musical por um bom tempo e que plantou a semente (inclusive em mim) da criação de uma banda em muitos garotos no início dos anos 90. A última grande impacto no rock. Depois disso, e até hoje, o que nos resta é a acomodação...

 NIRVANA - Nevermind (1991) - Geffen

Chris Novoselic, Dave Grohl e Kurt Cobain. Baixo, bateria e guitarra e nada mais. Essa foi a formação da banda que mudou os rumos do rock nos idos de 1991. Até o final dos anos 80, o rock conseguiu perder muito da sua força e não tinha muito a dizer. Nessa época o Guns foi o responsável pelo primeiro (e essencial) sopro de vida do ritmo já trintão, com seu Appetite for Destruction, lançado em 1987.

Mas o rock precisava de algo mais, algo que voltasse às suas origens e que mostrasse ao mundo que ainda tinha algo a dizer. Por mais que muita gente não ache, os responsáveis para que o rock voltasse aos trilhos foi REALMENTE o Nirvana. Com o disco Bleach, lançado em 1989, eles já mostraram um potencial fantástico. E em dois anos eles conseguiram o cacife suficiente para se tornarem porta-vozes de uma geração toda, a minha geração, com o clássico absoluto Nevermind.

Escutei pela primeira vez uma música desse disco em novembro de 1991, na 89 FM, que rolava direto o hino Smells Like Teen Spirit. No alto dos meus 15 anos, vi que aquilo era totalmente diferente do que rolava na época (dominada por Erasure e New Kids). A primeira vez que vi uma imagem dos caras, foi acho que na mesma semana também, num vídeo da Territorial Pissings no Programa livre (com direito a cabelo vermelho do Kurt e tudo). Com um misto de surpresa e adoração, me coloquei em busca de saber quem eram aquele tal de Nirvana...

Consegui encontrar uma locadora de CDs (que eram muitíssimo comuns na época aqui em SP) com um Nevermind em versão importada. Posso garantir que durante o dia todo, escutei aquele CD até gastar, e vendo que aquilo era o que queria como futuro (ainda tenho a fita que gravei aquele dia até hoje). Música após música, clássico após clássico, já dava para perceber que aquilo já fazia parte da história do rock.

Esse disco é um daqueles que vira uma coletânea depois de algum tempo. E é o melhor e maior disco dos anos 90. Começando pela Smells Like Teen Spirit, que se tornou um hino da molecada naqueles tempos, In Bloom, com seus dois clips geniais, a maravilhosa Come As You Are (que foi assassinada pelo monstro do pântano Caetano), Breed, ideal para abrir uma roda e fecha o lado com a magistral Lithium e a lírica Polly.

O lado B, um tanto quanto mais obscuro comercialmente mas tão bom quanto o lado A também é obrigatório: já abre com a nervosíssima Territorial Pissings, e chega numa das melhores sequências de músicas 'desconhecidas' que já vi em um disco... Drain You (uma das preferidas da casa), Lounge Act, Stay Away (que se chamava Pay To Play), uma das músicas dos anos 90 On A Plain e termina o disco de uma forma etérea e acachapante, com a auto-biográfica Something In The Way.

Com esse disco eles conquistaram o mundo, e depois ainda lançaram o In Utero (muito subestimado, mas um álbum excepcional) e o absoluto Unplugged In New York, que ensinou a todos como se fazer um 'acústico' de verdade. Vi muitas vezes entrevistas, shows (até a clássica apresentação no VMA de 1992, ao vivo!), e perdi o show deles no Morumbi em 1993.

E no dia que o Kurt Cobain se matou ainda estava discutindo na escola a importância do cara para a história do rock, até parece que eu sabia.

E tem muita gente que ainda não gosta dos caras. E os meus amigos na época não curtiam o Nirvana, e achavam que o Mr.Big (!!) significaria muito mais para a história do que o trio de Seattle. É, o tempo é o senhor das coisas...

Pena que muitos grupos não aprenderam nada com os caras e continuam tocando músicas bundas e um rock (rock?) pasteurizado e sem nenhuma atitude. Pena... pena mesmo...

Bom, por hoje é só

Até mais

#20

Opa...

Essa semana escutei bastante uma banda que fazia tempo que não ouvia direto, e que não é muito manjada aqui no Brasil. Acho que é uma das poucas bandas que conheço que devo gostar de pelo menos 98% das músicas. Pena que a formação original acabou por causa de um infeliz acidente aéreo quando eu tinha apenas um ano de vida... mas seu legado está aí até hoje:

 LYNYRD SKYNYRD - Pronounced Leh'-nerd Skin'-nerd (1973) - MCA.

Um dos maiores expoentes do Southern Rock, o Lynyrd foi formado no comecinho dos anos 70, e tinha na sua formação além do grande vocalista Ronnie Van Zant, Bob Burns na bateria, Gary Rossington na guitarra, Allen Collins também na guitarra, Ed King no baixo (que já havia tocado no Strawberry Alarm Clock, com o hit 'Incense And Peppermints' nos anos 60) e Billy Powell no piano. Em 1971 gravaram o single I Ain't The One, e logo depois assinaram com a MCA e logo de cara já gravaram esse disco que para mim tem mpusicas mais do que magistrais.

O "Pronounced..." tem uma sequência matadora de clássicos, que fizeram o LP virar uma coletânea. Começando pela própria I Ain't The One, o disco chega na belíssima balada Tuesday's Gone (regravada pelo Metallica no 'Garage...') e posso garantir que essa é uma das músicas que me fazem ter vontade de chorar... Chega depois da Gimme Three Steps e passa por outra do mesmíssimo naipe da Tuesday's Gone, a bela Simple Man. Essa música tem uma letra genial e que mexe lá no fundo da alma... não tem como não se emocionar.

O lado 2 vem a trinca poderosa de Things Goin' On - Mississipi Kid - Poison Whiskey e termina com uma das melhores canções e letras dos anos 70 a fantástica Free Bird. Uma música que fala coisas como "Cause I'm free as a bird now, and this bird you cannot change", merece um lugar de destaque na história.

Depois desse disco eles fizeram discos tão melhores quanto esse de estréia... Abrindo shows para o Who e para os Stones nos anos seguintes e cada vez mais buscando as raízes country americanas. E na turnê do quinto disco de estúdio, o Street Survivors (1977), um acidente de avião tirou a vida do vocalista Ronnie Van Zant, do guitarrista (que tinha entrado na banda em 1976) Steve Gaines e da sua irmã, a backing vocal Cassie Gaines.

No filme 'Free Bird', que mostra o show deles em 1976, abrindo para os Stones, tem imagens gravadas no avião que acabou caindo. A hora em que essas cenas são mostradas, e tocando Simple Man de fundo é algo extremamente triste...

Depois eles voltaram à ativa nos anos 90 e 2000, mas nada que se compare ao que fizeram nos anos 70... pena que ninguém por aqui conheça direito esses caras, eles merecem!

A dica de hoje é essa.... enjoy yourself...

Até mais

Fernando

#19

Fala povo!

Nossa... depois de mais de um mês sem postar nada (que vergonha), apareço aqui com uma dica das mais preciosas e das mais interessantes, pois ninguém conhece direito esse LP, embora a banda seja mais do que conhecida. Um disco que não me canso de escutar e um dos maiores exemplos de letras auto-biográficas que já vi.

 THE WHO! - The Who By Numbers (1975) - MCA

Um dos melhores discos do The Who é esse: The Who By Numbers, lançado em 1975 e que muitos, mas muitos fãs consideram um dos mais fracos discos do quarteto de Sheperd's Bush. No mínimo uma heresia e um absurdo... aqui temos belíssimas canções com letras que nos fazem pensar sobre a nossa vida.

Quando o Who! lançou o disco Quadrophenia, em 1973, cada um dos integrantes meio que seguiu para um caminho diferente dos demais, após ficarem quase 10 anos sempre juntos: o Roger Daltrey foi cuidar da sua carreira solo por um momento (aonde lançou os ótimos discos Daltrey de 1973 e Ride a Rock Horse de 1975). O John Entwistle foi também cuidar da carreira-solo e fuçar alguns singles do Who! para uma coletânea que foi lançada em 1974, Odds And Sods. Já o Keith Moon ficou bundando e se deprimindo por ter ficado sozinho, mas também e com uma ajuda dos seus amigos gravou o espetacular Two Sides Of The Moon em 1975.

Enquanto tudo isso, o Pete Townshend ficou numas de se esconder de tudo e de todos, e sem nenhuma aparição relevante, entrou numa fase complicada de sua vida, em que a depressão tomou conta de tudo. Mas como a máquina não podia parar, nesse meio-tempo de dois anos, ele passou escrevendo canções mais do que auto-biográficas, que mostravam todos os seus sentimentos naquela fase complicada da sua vida.

Talvez seja por isso que esse LP é tão verdadeiro e sincero. E devo admitir aqui que não é um disco fácil de se assimilar não. Eu mesmo quando o escutei pela primeira vez, no alto dos meus 14 anos, curti só duas músicas. Acho que só vim a curti-lo por inteiro quando comcei a entender o que ele estava dizendo.

Basicamente o disco, que funcionaria perfeitamente bem como uma provável 'ópera-rock' fala sobre um roqueiro de meia-idade, que está começando a envelhecer, e passa as noites vendo programas de rock na TV, enchendo a cara de gin, observando sua carreira, seu amor pela música e o medo que tudo aquilo pode estar acabando.

Bom, nesse LP o Pete abriu mão da utilização de sintetizadores, que já vinham aparecendo desde 71, e deixou a coisa bem no velho esquema Who! de guitarra-bateria-baixo-vocal potente. O disco começa com a linda Slip Kid (que chega à conclusão que "There's no easy way to be free"), passa pela However Such I Booze, chega no single do álbum Squeeze Box, e termina o lado A de forma brilhante com a dobradinha Dreaming From The Waist - Imagine A Man.

O meu lado preferido é o lado B  que começa com uma das melhores músicas do John Entwistle, Success Story, que justamente fala da decadência de velhos ídolos, tem depois a They're All In Love, a bela canção (só com a voz do Pete e um banjo) Blue, Red And Grey até chegar (para mim) no melhor exemplo da situação que o Pete estava passando na época, a música How Many Friends. Só pelo título já dá para perceber o tipo de indagção que ele está fazendo, e com a primeira estrofe vemos isso claramente:

I'm feelin' so good right now, there's a handsome boy tells me how I changed his past
He buys me a brandy, but could it be he's really just after my ass?
He likes the clothes I wear, he says he likes a man who's dressed in season
But no one else ever stares, he's being so kind, what's the reason?

How many friends have I really got?
How many friends have I really got?
How many friends have I really got?
That love me, that want me, that'll take me as I am?

O resto da música vai na mesma toada, e sem dúvida nenhuma é uma das mais belas canções já escritas e tocadas por alguma banda. Típica da série "Essa eu adoraria ter escrito". Com o grande Nicky Hopkins no piano, o baixo perfeito do Entwistle, o vocal magistral do Daltrey, a bateria que nem precisa de ajdetivos do Keith Moon e a letra e a base de guitarra genial do Pete, essa é uma das canções que me deixam com vontade de chorar.

O LP ainda termina com a maravilhosa In A Hand Or A Face, e com ela o estrago já foi feito...

Depois disso ainda tivemos a turnê gloriosa do Who! em 75-76, a última com o Keith Moon, e em 78 ele morreria, deixando milhões de fãs órfãos, mas aí já é outra história!

Abraços

Fernando

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